10.12.05

 

'É preciso levar as crianças mais a sério nas notícias'

Investigadora Cristina Ponte defende que é dado um tratamento pouco valorizado aos mais novos na Informação. Peças das televisões são o novo alvo de estudo

Na recolha da selecção de notícias e respectivos comentários pedida a uma turma da escola Escola Maria da Luz Deus Ramos, situada no bairro das Galinheiras, Cristina Ponte deparou-se com o reparo de Huvandra, uma miúda de 7 anos, sobre a desadequação da foto em relação ao texto. Huvandra chamava a atenção para o facto de um texto sobre esquizofrenia ter como ilustração uma imagem onde pode ver-se uma criança, quando o texto não falava dos mais pequenos.

A investigadora que se tem dedicado ao tratamento das crianças na Informação recorreu ao exemplo "fresco" - foi ontem apanhar esses trabalhos à escola, no âmbito de uma pesquisa que está a desenvolver - para dizer que nem sempre os meios de comunicação social escutam devidamente as crianças. Na maior parte dos casos, não se traz para a televisão e jornais o seu lado mais perspicaz e inteligente.

"É mais comum serem tratadas segundo o estereótipo da criança ignorante que tem piada. São vistas pelo lado da anedota". A conclusão é deduzida, aliás, da análise que compõe a tese de doutoramento que vai ser publicada em livro (caixa).

"São pouco ouvidos pelos jornalistas e quando isso acontece são feitas citações num contexto jocoso, ou seja, são destacadas as respostas engraçadas", disse a docente, remetendo-se para o exemplo de uma notícia sobre o encontro entre o Presidente da República com alguns miúdos.

Cristina Ponte notou ainda nos trabalhos das crianças da escola dos bairro das Galinheiras, sobretudo habitado por famílias desfavorecidas, o enorme impacto que teve o desaparecimento da "pequena Joana". Nas escolhas dos miúdos, esta notícia teve apenas concorrência do tsunami. À medida que vai avançando a pesquisa no terreno, Cristina Ponte diz que vai fortalecendo a teoria da pouca valorização dos miúdos nas notícias.

Sensibilizar jornalistas

"É preciso levar as crianças mais a sério nas notícias", afirma. Até porque se isso for feito, "elas terão um maior interesse pela Informação. A cidadania dos mais jovens, bem antes dos 18 anos, só teria a ganhar com isso".

Nos países da América Latina, curiosamente, têm vindo a desenvolver-se iniciativas marcadas pelo objectivo de trazer para a agenda dos jornalistas temas relacionados com crianças e de abordagem mais positiva. A pretensão é fazer frente ao tipo de notícia mais comum, que liga, com frequência, o adolescente à delinquência e a outros dilemas sociais.

Para corrigir a tendência detectada, Cristina Ponte fala na necessidade de sensibilizar os jornalistas.

Nota: Apesar de ser de Março, trazia agora este apontamento que tinha em arquivo, com material da Agência Lusa e do Jornal de Notícias.

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